A União de Facto entre Chaves e a Modernidade


Por: Marta da Costa

A 11 de Dezembro de 2013, Chaves via partir um dos filhos que mais longe levou o nome da terra. Nadir Afonso morria aos 93 anos deixando um extenso e rico espólio artístico em diversas áreas. Pouco mais de um ano após a sua morte, a cidade de Chaves prepara a inauguração do Museu Nadir Afonso, um projeto ambicioso que pretende incluir Chaves na rota cultural nacional e internacional. O ceticismo está presente, mas a Câmara Municipal de Chaves não tem dúvidas: o Museu Nadir Afonso será “uma mais valia cultural para a cidade e para o país”.

A ostentação de um projeto Siza Vieira




Em 2002 foi estabelecido um acordo entre o então Presidente da Câmara de Chaves – João Batista – e o mestre Nadir, cujo objetivo seria o de criar  um edifício para a sua Fundação. Nadir Afonso propõe o arquiteto Siza Vieira como responsável pela projeção do edifício e, o agora Museu Nadir Afonso, começa a ser planeado. A ideia inicial é a de ser estabelecido um regime de comodato com a Fundação (que na altura ainda não estava constituída e definida como Fundação Nadir Afonso), isto é, a Câmara disponibiliza o espaço, e a Fundação ficaria responsável por toda a gestão e manutenção do edifício. A morte de Nadir inverte o rumo do projeto. Desta forma, é a Fundação que faz o comodato das obras do mestre à Câmara Municipal para expor, guardar e conservar naquele edifício. A mudança de ideia face à gestão deve-se, segundo Laura Afonso, ao facto do projeto ser bastante ambicioso – “nós (Fundação Nadir Afonso) não tínhamos estrutura capaz de sozinhos dar continuidade a um projeto destes”. Ainda assim enfatiza que “será um grande projeto para Chaves. Irá colocar Chaves na rota da cultura, nos centros de cultura dos grandes museus e, uma pequenina instituição como a Fundação Nadir Afonso, não tinha capacidade para assegurar o funcionamento de um museu desta envergadura”.


As elevadas expectativas repousam na assinatura Siza Vieira, que já atraiu a visita de arquitetos e a publicação de um artigo na revista internacional Monocle. O Presidente da Câmara de Chaves realça e valoriza estes factos afirmando que “estamos a falar de uma obra de arquitetura do Sr. Arquiteto Siza Vieira; só por si já vale, já atrai gente”.

O preço da ostentação

Um projeto desta dimensão está avaliado em 10 milhões de euros, sendo que 25% desse valor é pago pelos flavienses. É no campo financeiro que as críticas se fazem ouvir, chegando à Câmara Municipal de Chaves que afirma de forma convicta que “há aí uma certa crítica de que o museu vai dar prejuízo à Câmara Municipal na sua gestão: é verdade”. António Cabeleira adianta que acredita “que em Portugal nenhum museu dará lucro. Nenhum museu em Portugal cobre as despesas de funcionamento”, ainda assim este pensamento não deverá servir de desculpa para não se apostar na cultura, segundo o autarca. “Infelizmente os hábitos culturais dos portugueses são fracos e a quantidade de pessoas que vai ao teatro, a espetáculos de música, exposições, etc, não é tão grande quanto isso que desse para a receita de entrada sustentar os diferentes equipamentos e as diferentes atividades culturais. Então se assim fosse isto fechava tudo e éramos um país triste”, comenta António Cabeleira que não considera o Museu Nadir Afonso um projeto arriscado. Laura Afonso não gosta de falar em prejuízo – “A Cultura desenvolve o turismo e automaticamente toda uma comunidade. Se tem muitos visitantes há possibilidade de haver gastos em cafés, restaurantes..., cria conhecimento e é um fator de divulgação incrível. Não podemos encarar isso como um prejuízo. É uma mais-valia”.




O financiamento do Museu Nadir Afonso foi alcançado através do Programa Nacional de Valorização do Território (POVT), um programa nacional gerido através de Lisboa. Para aqueles que ainda assim pensam que o dinheiro investido deveria ter sido aplicado noutro projeto, António Cabeleira defende que “este projeto é de interesse nacional. São muito poucos os equipamentos culturais financiados pelo POVT e Chaves teve a felicidade de ter um. Se Chaves não candidatasse a Fundação Nadir Afonso e tivesse candidatado outras coisas a esse POVT, provavelmente não seriam aprovados e o país teria gasto esse apoio comunitário noutro ponto do território”. O autarca não tem dúvidas: “valeu a pena ter tido esta ousadia porque isto vai constituir-se como um ícone para Chaves e Trás-Os-Montes sem sombra de dúvida”.

Um outro tributo a 25 km

É impossível falar do Museu Nadir Afonso de Chaves sem mencionar a existência do Centro de Artes Nadir Afonso, em Boticas. Este último não tem um nome forte da arquitetura associado mas, tal como o edifício de Chaves, presta homenagem a Nadir Afonso através das exposições que apresenta. O Presidente da Câmara de Chaves destaca o cariz instrutivo do projeto flaviense, uma vez que existe um ateliê de trabalho idealizado para artistas transmitirem os seus ensinamentos. Ainda assim, o autarca chama à atenção para o facto de não haver “qualquer intenção do Museu Nadir Afonso, em Chaves, se sobrepor ao Centro de Artes, em Boticas, mas também não queremos que aconteça o contrário; está nas mãos da Fundação fazer a articulação perfeita entre este edifício e o outro”. Laura Afonso, à semelhança do autarca flaviense, defende a necessidade de existir complementaridade entre os dois espaços: “A nossa ideia é trabalhar em rede. O que está lá não pode estar aqui. A nossa ideia é rodar”.

A caminho do Futuro

A Fundação Nadir Afonso e a Câmara Municipal partilham a opinião de que este projeto representa uma mais-valia para a cidade de Chaves. A equipa de gestão do edifício pertence à Câmara e, Laura Afonso, realça a necessidade de se trabalhar com uma equipa pequena e polivalente. Por sua vez, o Presidente da Câmara salienta o facto de ser criada uma divisão dedicada à Cultura – “Não há muitos municípios do pais a ter uma divisão de cultura; Vamos ter uma equipa que se vai preocupar só com cultura e com a promoção cultural da nossa região”.





Os dados estão lançados: a modernidade que António Cabeleira afirma que faltava em Chaves é alcançada no projeto Siza Vieira; e o intento de colocar a cidade flaviense na rota cultural nacional está bem marcado.

No entanto, existe um longo caminho a percorrer no que toca ao acolhimento da população local face a este edifício.
O historial de projetos culturais caídos no esquecimento ou no menosprezo continua bastante presente, pelo que as dúvidas face ao Museu Nadir Afonso são infindas. Resta esperar que o entendimento face à importância deste projeto e da aposta na Cultura atinja toda a população.
Tal como afirma o Presidente da Câmara de Chaves, “a cultura também transmite mensagens que nos devem fazer melhores cidadãos e consequentemente melhor sociedade”.