Por: Marta da Costa
A ostentação de um projeto Siza Vieira
Em 2002 foi estabelecido um acordo entre o então Presidente
da Câmara de Chaves – João Batista – e o mestre Nadir, cujo objetivo seria o de
criar um edifício para a sua Fundação.
Nadir Afonso propõe o arquiteto Siza Vieira como responsável pela projeção do
edifício e, o agora Museu Nadir Afonso, começa a ser planeado. A ideia inicial é
a de ser estabelecido um regime de comodato com a Fundação (que na altura ainda
não estava constituída e definida como Fundação Nadir Afonso), isto é, a Câmara
disponibiliza o espaço, e a Fundação ficaria responsável por toda a gestão e
manutenção do edifício. A morte de Nadir inverte o rumo do projeto. Desta
forma, é a Fundação que faz o comodato das obras do mestre à Câmara Municipal
para expor, guardar e conservar naquele edifício. A mudança de ideia face à
gestão deve-se, segundo Laura Afonso, ao facto do projeto ser bastante
ambicioso – “nós (Fundação Nadir Afonso) não tínhamos estrutura capaz de
sozinhos dar continuidade a um projeto destes”. Ainda assim enfatiza que “será
um grande projeto para Chaves. Irá colocar Chaves na rota da cultura, nos
centros de cultura dos grandes museus e, uma pequenina instituição como a
Fundação Nadir Afonso, não tinha capacidade para assegurar o funcionamento de
um museu desta envergadura”.
As elevadas expectativas repousam na assinatura Siza Vieira,
que já atraiu a visita de arquitetos e a publicação de um artigo na revista
internacional Monocle. O Presidente da Câmara de Chaves realça e valoriza estes
factos afirmando que “estamos a falar de uma obra de arquitetura do Sr.
Arquiteto Siza Vieira; só por si já vale, já atrai gente”.
O preço da ostentação
Um projeto desta dimensão está avaliado em 10 milhões de
euros, sendo que 25% desse valor é pago pelos flavienses. É no campo financeiro
que as críticas se fazem ouvir, chegando à Câmara Municipal de Chaves que
afirma de forma convicta que “há aí uma certa crítica de que o museu vai dar
prejuízo à Câmara Municipal na sua gestão: é verdade”. António Cabeleira
adianta que acredita “que em Portugal nenhum museu dará lucro. Nenhum museu em
Portugal cobre as despesas de funcionamento”, ainda assim este pensamento não
deverá servir de desculpa para não se apostar na cultura, segundo o autarca. “Infelizmente
os hábitos culturais dos portugueses são fracos e a quantidade de pessoas que
vai ao teatro, a espetáculos de música, exposições, etc, não é tão grande
quanto isso que desse para a receita de entrada sustentar os diferentes
equipamentos e as diferentes atividades culturais. Então se assim fosse isto
fechava tudo e éramos um país triste”, comenta António Cabeleira que não
considera o Museu Nadir Afonso um projeto arriscado. Laura Afonso não gosta de
falar em prejuízo – “A Cultura desenvolve o turismo e automaticamente toda uma
comunidade. Se tem muitos visitantes há possibilidade de haver gastos em cafés,
restaurantes..., cria conhecimento e é um fator de divulgação incrível. Não
podemos encarar isso como um prejuízo. É uma mais-valia”.
O financiamento do Museu Nadir Afonso foi alcançado através
do Programa Nacional de Valorização do Território (POVT), um programa nacional
gerido através de Lisboa. Para aqueles que ainda assim pensam que o dinheiro
investido deveria ter sido aplicado noutro projeto, António Cabeleira defende
que “este projeto é de interesse nacional. São muito poucos os equipamentos
culturais financiados pelo POVT e Chaves teve a felicidade de ter um. Se Chaves
não candidatasse a Fundação Nadir Afonso e tivesse candidatado outras coisas a
esse POVT, provavelmente não seriam aprovados e o país teria gasto esse apoio
comunitário noutro ponto do território”. O autarca não tem dúvidas: “valeu a
pena ter tido esta ousadia porque isto vai constituir-se como um ícone para
Chaves e Trás-Os-Montes sem sombra de dúvida”.
Um outro tributo a 25 km
É impossível falar do Museu Nadir Afonso de Chaves sem
mencionar a existência do Centro de Artes Nadir Afonso, em Boticas. Este último
não tem um nome forte da arquitetura associado mas, tal como o edifício de
Chaves, presta homenagem a Nadir Afonso através das exposições que apresenta. O
Presidente da Câmara de Chaves destaca o cariz instrutivo do projeto flaviense,
uma vez que existe um ateliê de trabalho idealizado para artistas transmitirem
os seus ensinamentos. Ainda assim, o autarca chama à atenção para o facto de
não haver “qualquer intenção do Museu Nadir Afonso, em Chaves, se sobrepor ao
Centro de Artes, em Boticas, mas também não queremos que aconteça o contrário;
está nas mãos da Fundação fazer a articulação perfeita entre este edifício e o
outro”. Laura Afonso, à semelhança do autarca flaviense, defende a necessidade
de existir complementaridade entre os dois espaços: “A nossa ideia é trabalhar
em rede. O que está lá não pode estar aqui. A nossa ideia é rodar”.
A caminho do Futuro
A Fundação Nadir Afonso e a Câmara Municipal partilham a
opinião de que este projeto representa uma mais-valia para a cidade de Chaves.
A equipa de gestão do edifício pertence à Câmara e, Laura Afonso, realça a
necessidade de se trabalhar com uma equipa pequena e polivalente. Por sua vez,
o Presidente da Câmara salienta o facto de ser criada uma divisão dedicada à
Cultura – “Não há muitos municípios do pais a ter uma divisão de cultura; Vamos
ter uma equipa que se vai preocupar só com cultura e com a promoção cultural da
nossa região”.
Os dados estão lançados: a modernidade que António Cabeleira
afirma que faltava em Chaves é alcançada no projeto Siza Vieira; e o intento de
colocar a cidade flaviense na rota cultural nacional está bem marcado.
No
entanto, existe um longo caminho a percorrer no que toca ao acolhimento da
população local face a este edifício.
O historial de projetos culturais caídos no esquecimento ou no menosprezo continua bastante presente, pelo que as dúvidas face ao Museu Nadir Afonso são infindas. Resta esperar que o entendimento face à importância deste projeto e da aposta na Cultura atinja toda a população.
Tal como afirma o Presidente da Câmara de Chaves, “a cultura também transmite mensagens que nos devem fazer melhores cidadãos e consequentemente melhor sociedade”.
No
entanto, existe um longo caminho a percorrer no que toca ao acolhimento da
população local face a este edifício.O historial de projetos culturais caídos no esquecimento ou no menosprezo continua bastante presente, pelo que as dúvidas face ao Museu Nadir Afonso são infindas. Resta esperar que o entendimento face à importância deste projeto e da aposta na Cultura atinja toda a população.
Tal como afirma o Presidente da Câmara de Chaves, “a cultura também transmite mensagens que nos devem fazer melhores cidadãos e consequentemente melhor sociedade”.




