Entrevista a Isabel Seixas

Por: Manuela Rainho

Isabel Seixas é uma das melhores poetisas flavienses. De formação académica ligada ao universo das ciências ditas exactas, Isabel Seixas extravasa na sua obra poética a vertente humana e espiritual da sua vida profissional e académica. Filha de Trás-os-Montes, a escritora transparece uma atitude de orgulho e dignidade relativamente ao regionalismo diferenciador que é ser transmontano.

Manuela Rainho: Para si, o que representa escrever?

Isabel Seixas: Escrever para mim é ser eu própria; é dar largas a uma das minhas dimensões que às vezes é mais obscura, outras vezes é espontânea e retrata muito um estado de espírito do momento; escrever é a minha liberdade, a minha libertação, é aquele momento em que ser mulher é conseguir uma igualdade que por vezes nos está vedada em termos de expressão como pessoa, quando estamos muito condicionados por normas, por aspectos sociais que acabam por nos castrar. Na escrita, tenho essa permissão; sem ser permissiva é-me dado esse direito, por que há sempre uma espécie de aceitação por parte das pessoas pelo que escrevemos. Embora personalizem e saibam que somos nós que escrevemos, atribuem-nos sempre uma certa tolerância relativamente ao que escrevemos, embora a leitura do que escrevemos é de cada um e acaba por aumentar a subjectividade, visto que escrevemos mas não sabemos de que forma vai ser lido pois o texto acaba por vestir um bocadinho as vivências da pessoa que lê. Escrever para mim também é uma das formas que encontro para poder dar vivas ao que não posso fazer em termos de expressão. Há questões que nós por vezes gostaríamos de expressar, mas depois o nosso entorno, a nossa envolvência obrigam-nos a ter um determinado comportamento relacionado com o que esperam de nós. Na escrita eu quase consigo essa libertação. Quase porque às vezes, mesmo em termos de linguagem surge alguma contenção.
Não sei se escrevo poesia. Por vezes equaciono-me sobre isso. Depende muito do conceito de poesia. Penso que escrevo mais prosa poética ou poesia em prosa… não sei se existe esta última. Desconheço a que critérios obedece o conceito de poesia, o que é um bom poeta. Para mim, bom escritor é aquele que é lido, porque tem um quórum, impulsiona as pessoas a retratarem-se no que escreve, a pegarem num livro, a lerem-no. Não sou muito ambiciosa, mas gostava de um dia despertar o interesse no leitor anónimo para me ler. Por enquanto, sou eu que ofereço os livros.

M.R.: Penso que mesmo a nível nacional, a poesia é um género literário com uma tiragem muito baixa. Mesmo os chamados grandes poetas não são lidos por uma grande faixa de leitores. Por isso, o facto de gostar de ser lida, de comprarem os seus livros, é uma ambição lícita uma vez que escrevemos para ser lidos, no entanto, para além disso é importante sermos coerentes connosco próprios. Do que disse até agora penso que você é muito. A segunda questão tem a ver com a criatividade. Considera-se um ser criativo? E como é que decorre o processo criativo relativamente ao que escreve?

I.S.: O meu processo criativo é algo anárquico, porque quem me inspira são os momentos do quotidiano, são as pessoas com quem convivo. A minha profissão é uma grande fonte de inspiração. Sou enfermeira, portanto ser enfermeira é mesmo a minha pele. Lidar com a dor é um grande gerador da minha criatividade. Penso que a dor acaba por despoletar nas pessoas as respostas humanas que mais mágoa suscitam; a dor é a alma despida da pessoa a que nós, enfermeiros, temos acesso. Principalmente quando há dor e sofrimento.
Eu considero-me bastante criativa. E isto que digo não tem nada de positivo ou é reflexo de uma auto-estima inflacionada. Se pudesse só escrever, se pudesse viver só com a escrita, sei que era capaz de escrever constantemente coisas diferentes. O meu processo criativo nasce dessa necessidade de escrever.
Embora não tenha um conceito muito definido sobre o que é a criatividade, sei que sou capaz de ser criativa. Criatividade é também essa capacidade de fazer coisas diferentes e que as pessoas que contactam com a obra do artista consigam de facto ver um horizonte diferente e identificar-se com ele. A criatividade é também algo de controverso e versátil.
Por outro lado, para mim a criatividade tem de ser algo de inovador. Pode até ser um plágio criativo, se pegarmos numa ideia já trabalhada por outro autor e aperfeiçoá-la, dar-lhe corpo – claro que sempre respeitando os direitos de autor –. Criatividade é um certo empreendedorismo das ideias.

M.R.: Gostei dessa sua última definição de criatividade. Uma outra questão. Pensa que existe uma identidade cultural transmontana? De que forma é que ela se manifesta na sua obra?

I.S.: Não consigo dissociar esta identidade cultural do sítio onde vivo. Nasci em Bornes de Aguiar, uma aldeia da freguesia de Pedras Salgadas. Pedras Salgadas é que tem nome porque efectivamente é um local de passagem, um local que tem as águas que lhe dão fama, aquele parque e o casino… Portanto nasci mesmo em Trás-os-Montes. Embora com algumas ligeiras diferenças de região para região: a diferença no sotaque, nas questões que são específicas de cada zona, há uma identidade cultural que nos uniformiza de certa forma. Essa uniformidade tem muito a ver com a nossa espontaneidade, tem muito a ver com a nossa simplicidade, que julgo ser fabulosa, com uma sinceridade que às vezes é crua. O transmontano tem uma sensibilidade muito própria; é muito inteligente.
Independentemente do seu estatuto e da sua formação de base, encontramos aquele olhar perspicaz no pastor ou em qualquer um de nós que tem formação. É aquele olhar de apreensão da realidade, de observação dos sentimentos, de observação da sensibilidade de cada um. Penso que frequentemente somos muito injustos com a aceitação dessa própria identidade. Influenciados por um certo snobismo, nomeadamente nas grandes cidades, nas nossas capitais que nos exigem um limar da nossa linguagem e o não preservar as características dessa nossa identidade que pensam que deve ser escondida, o que é mentira.
Para mim, o poeta que constrói melhor a nossa identidade cultural é Miguel Torga. É um poeta fascinante. Ele traduz isso nos seus poemas; ele captou essa identidade através da urze, das giestas, dos cardos, da nossa própria gestação, a pura forma condensada como escreve. Ninguém melhor do que Torga para definir o que é a identidade transmontana.

M.R.: Torga é um poeta substantivo. Tem muito a ver com a nossa identidade substantiva. Ainda que eu não seja transmontana, vivo cá há trinta anos e por isso considero-me afectivamente transmontana. Ora, enquanto pessoa de cultura que vive na era da globalização, de que forma ser transmontano a condiciona ou a integra?

I.S.: Condiciona-me naturalmente, pois é uma das questões que mesmo que eu quisesse fugir, não conseguia. Vivi sempre aqui nesta região, adoro esta zona, sinto-me de certa forma abençoada por viver aqui, tenho uma certa vaidade em ser transmontana. Portanto, obviamente que isso me condiciona em tudo. Mas também me integra, porque esta nossa vivência é invejável. Nós temos a oportunidade de contactar com todo o tipo de vivências, com a pobreza, que nos dá logo uma substância enorme e uma essência para descrevermos o que é o mundo, o que é a vida, aquele paralelismo entre vida morte. Essa linha que divide a vida e a morte que traduz as vivências do percurso que é a vida. A aprendizagem do ciclo vital, aprender a viver no fio da navalha aqui é muito fácil. Todas essas diferenças são uma mais-valia para cada escritor. Ser transmontana integra-nos através da nossa dimensão agreste. Toda a gente espera algo de agreste de nós. Se temos uma postura mais polida suscitamos admiração, espanto. Mas isso tem a ver com a nossa educação, com o nosso berço, seja ele qual for, com as nossas opções. Penso que ser transmontano é integrador porque há uma certa curiosidade relativamente a nós.

M.R.: Como definiria Isabel Seixas enquanto pessoa de cultura e de escrita?

I.S.: É um bocado difícil sem fazer marketing. Nós construímos a nossa imagem um bocado a partir da nossa percepção do mundo. Penso que essa verdade tem a ver com o autoconhecimento. Uma pessoa é um todo muito superior à soma das partes. É uma visão global, holística. Assim, de forma humilde posso dizer que sou boa pessoa, que em termos de escrita já fui muito mais primária; já escrevi muito mais aquilo que me apetecia escrever. Hoje, a minha faceta de mãe lima um pouco esse ser primário e primordial. Às vezes por causa dos meus filhos substituo as palavras, escrevo mais por eufemismos… mas basicamente tento preservar cada vez mais a minha identidade, ser eu própria naquilo que penso serem as minhas características principais: sou uma pessoa simples, nasci numa taberna e digo-o com orgulho. É curioso que houve um tempo que tinha dificuldade em assumir isso com naturalidade. Hoje, não. Penso mesmo que a minha riqueza advém daí, pois desde miúda confrontei-me com as emoções mais subliminares do Homem. Estou a escrever um livro que nunca mais acabo que se chama A Taberna, um romance. Esse romance traduz tudo aquilo que a Isabel Seixas é, naquela diversidade de todas as personagens. Faz parte da minha arquitectura emocional. Os meus pais tinham uma venda que também tinha taberna e foi aí que comecei a erigir a minha personalidade. Guardei essas imagens das expressões de revolta, de perplexidade do Homem por não perceber porque havia tanta distinção social. Uns tinham de viver com fome, frio, a pedir e por que razão outros tinham de subjugar. Tem muita influência também nas minhas ideias e opções políticas. Por isso considero-me uma pessoa de esquerda mas duma esquerda apartidária que deseja limar injustiças, a assimetria social.